Podia ter sido tudo diferente

Tiago Gomes
Dec 30, 2024Por Tiago Gomes

Hoje vou contar aqui uma história muito impactante na minha vida, talvez uma das mais impactantes de todas.

Impactante ao ponto de conseguir contar pelos dedos as pessoas com quem já conversei sobre isto. Para muitos pode parecer uma história triste... para mim acabou por ser uma história repleta de sorte e que "acabou" muito bem!

Hoje, vou tentar deixar escrita toda a minha história com o Desporto e de como cheguei até ao voleibol.

Os primeiros capítulos desta saga parecem-me muito nebulosos, a primeira experiência do qual me recordo com desporto é mesmo a natação, teria eu uns 5 ou 6 anos... na verdade, já detestava aquilo. Esse desamor manteve-se intocável, a natação continua a dar-me arrepios na espinha só de pensar.

Além disto, o meu pai tinha jogado futebol e ao que diziam era um "craque" do futebol distrital (o que me parece um paradoxo) e era ainda presidente de um clube dessa mesma divisão, os míticos Magos Futebol Clube de Anta. Assim, muitas das minhas noites foram passadas na sede do clube a jogar dominó ou pinball no Windows XP, sempre com jogos de futebol a dar no fundo - às vezes ia vendo alguns momentos dos jogos, mas o que eu gostava mesmo era de moer o café, retirar caricas das garrafas de superbock e ouvir os típicos palavrões de um grupo de mais de 25 homens a ver a bola. 

Mais tarde surgiu a ideia de colocarem-me no futebol, não só porque muitos dos meus colegas de escola também jogavam mas também porque detestava a natação e, claro, não podia ficar sem fazer nenhuma atividade física. Podem não acreditar mas eu era muito franzino e  não só a minha qualidade técnica e tática não eram das melhores (note-se o eufemismo da expressão utilizada) como o gosto pela modalidade também não era notório, mas lá me mantive durante cerca de duas épocas. Para vocês verem o quão motivado eu estava a jogar aquilo, eu fui "chutado" para guarda-redes e deitava-me na baliza à espera que o adversário chegasse... Orgulho dos pais, como imaginam.

Mantive-me no futebol até ao momento em que parti o braço no treino e acabei por ter de ser operado. Foi uma lesão muito feia, uma fratura exposta que me obrigou a parar de treinar um ror de tempo. Nesse intervalo fui ficando mais gordinho, físico que mantive até cerca dos 17 anos. 

Até aqui parecia que todas as minhas experiências com o desporto tinham sido negativas, mas eu tive a sorte de ainda crescer numa geração onde brincávamos na rua diariamente, mesmo que a playstation 1, a nintendo 64 e, mais tarde, a playstation 2 já fossem uma realidade. Jogávamos futebol com duas vigas a fazer de baliza (ou mesmo dois chinelos), marcávamos campos de voleibol com as pedras da calçada e o ponto alto do dia era sempre o jogar às escondidas. De longe a longe vinham os pais à janela para garantir que estávamos bem... Outros tempos. Tive ainda a sorte de ter vizinhos mais novos, outros da minha idade e alguns mais velhos do que eu. Um encontro de diferentes idades tão rico que fazia com que todas essas outras experiências com o desporto não me parecessem negativas, eu não associava o suar, o acelerar do coração a uma coisa negativa, pelo contrário!

Foi nesse pátio atrás de minha casa que aprendi as primeiras noções bases do voleibol: o que era um passe, um remate e uma manchete, sem nunca sonhar que isso seria uma das coisas mais importantes da minha vida. As gerações mais novas que perderam esta essência de brincar na rua já começam a sentir as consequências disso, mas só a longo prazo é que vamos conseguir perceber qual o verdadeiro impacto desta mudança de panorama.

Paralelamente a isto, o meu pai ficou doente quando eu tinha 6 anos. Por esse motivo, durante 3 anos não podíamos tirar férias para longe, tínhamos de continuar perto do IPO do Porto para manter os tratamentos que estavam a ser feitos. Isto fazia com que no verão os meus amigos fossem indo de férias e, com eles, ficava sempre um espacinho por ocupar naqueles bancos do pátio, bancos esses que eram quase a "central" das brincadeiras aka "casa" das escondidas ou rede de voleibol/futevolei improvisada. Mais tarde, esses bancos passaram a ser o local de incontáveis horas à conversa, que eram transferidas nas alturas de maior frio para as escadas do prédio. 

O tempo foi passando. Eu, a minha irmã e os nossos amigos fomos crescendo por ali, em conjunto. Todos em diferentes fases de desenvolvimento, e por muito que nem sempre nos compreendêssemos, era tudo tão simples e puro que me comovo só de pensar nisso. Não tínhamos de compreender, só tínhamos de estar lá uns para os outros. 

Quando tinha 9 anos a doença do meu pai foi avançando, o que acabou por terminar da pior maneira possível. Dia 29 de agosto de 2008 foi o dia em que o meu pai morreu e isso foi super importante para todo o desenrolar da minha história a partir daqui.

O passar pela doença do meu pai fez com que tivesse de crescer muito mais cedo do que todos os meus colegas e deu-me uma noção da realidade que era incomum naquela idade. Eu lembro-me de tudo, especialmente de tudo o que senti nos diferentes momentos. Foi uma aprendizagem, a mais dura da minha vida.

Passado três semanas do meu pai morrer, um dos meus vizinhos convidou-me para ir com ele experimentar o clube de futebol onde ele treinava, e lá fui eu. Lembrem-se, eu era gordinho e as minhas skills eram das piores, mas fui na mesma. Eram uns treinos de captação, e mesmo com 9 anos já levavam aquelas captações bastante a sério. Treinei cerca de uma semana, chegava a casa todos os dias entusiasmado para contar à minha mãe como tinha sido o treino, até que num dos dias eu tive de faltar ao treino. No dia seguinte, ao chegar ao campo, o treinador disse-me com um tom de altivez desmedido (quase aos berros) "o que estás aqui a fazer? Já te disse que tu não treinas mais aqui". Fui à boleia da mãe desse meu amigo para o treino. Ela, amavelmente, fez o favor de levar-me novamente até casa. Lembro-me da sensação do chorar em seco, do sentimento profundo e frio da rejeição que se prolongou quase até ao dia seguinte. 

Depois fui levado a experimentar a patinagem. Contando a história rapidamente: torci o pé na primeira vez que coloquei os patins, desisti da ideia.

Recuperei dessa lesão e passado pouco tempo fui convencido por uma tia minha a experimentar os trampolins. Parece-me uma modalidade simples de convencer miúdos a experimentarem, mas aquilo é levado com grande seriedade desde cedo. Aqui, conheci pessoas que levo comigo para o resto da minha vida. Mais uma vez, a minha performance era penosa. Na minha primeira competição, que foi no pavilhão municipal de Vila do Conde, saltei no duplo mini trampolim. Essa prova consiste em correr em direção a um trampolim e, depois, fazer dois ou três contactos com a cama elástica (com algumas acrobacias), seguidas da aterragem, com toda aquela etiqueta e postura típicas dos ginastas.

No meu primeiro salto corri até ao trampolim, enganei-me na contagem dos passos e parei. Chorei desalmadamente, com o pavilhão a olhar para mim. Para eles era só um miudo "medricas" que não sabia lidar com a pressão, para mim era algo muito mais profundo do que isso. Era um expressar do que eu sentia, no momento e horas erradas. Lá me acalmei e os restantes atletas foram performando até voltar a ser a minha vez. No segundo salto consegui saltar para o trampolim, mas saí praticamente disparado para a frente, outro caos. Já no terceiro salto consegui fazer os três supostos saltos, mas acabei sentado de rabo na ponta do trampolim: choradeira novamente. 

Entretanto voltei a competir mais uma vez e o desfecho já não foi tão mau: já não fiquei perto do último lugar! Entretanto a minha mãe, inteligentemente, aliciou-me a desistir dos trampolins e experimentar o voleibol. Usou a desculpa de que o orçamento estava curto no clube e tinham de mandar alguns atletas embora e eu, como tinha sido dos últimos a entrar, provavelmente teria de sair. Conseguiu convencer-me porque alguns dos meus amigos dos trampolins já estavam também no voleibol (acho que pelo mesmo motivo que eu). Assim sendo, fomos todos para o pavilhão pequeno e gelado do voleibol. A partir daí, o meu mundo mudou.

Entrei no voleibol da Associação Académica de Espinho com 11 anos, num escalão que fazia a transição entre os Mini A e os Mini B. Na altura, comecei na equipa D e fui escalando até à equipa A com alguma facilidade. Sempre atribui a todas as horas a jogar voleibol no pátio a essa subida relativamente rápida, e talvez faça algum sentido. Tive a sorte de ser muito bem acolhido por todos os treinadores da modalidade e a seriedade com que as coisas eram levadas não era tão elevada como na ginástica, pelo menos até ao momento em que comecei a jogar a um nível mais razoável. Criei uma paixão enorme pelo voleibol. Estava sempre metido no pavilhão e à medida que o tempo foi passando fui criando o gosto por ajudar os mais novos. Aos 13 anos já começava a ajudar os Mini A no treino, coisa que mais ninguém da minha equipa fazia. Para mim, aquele clube era quase como uma terceira casa. 

Daí, o resto foi acontecendo naturalmente. Fomos campeões nacionais repetidas vezes, o que só provou uma coisa: não éramos menos capazes do que os outros, estávamos simplesmente no desporto errado... Um subaproveitamento tremendo!   

 O resto... é uma história feliz e que continua a ser escrita. Posso dizer que acredito que o Desporto mudou completamente a minha vida e que não sei quem é que eu seria sem ele. Tinha ainda vários objetivos em mente ao escrever tudo isto:

  • Mostrar que o Desporto tem esta dualidade de moldar a nossa personalidade mas, ao mesmo tempo, conseguir expressar aquilo que nós somos
  • Às vezes, a diferença entre uma história feliz ou triste está na forma como nunca desistimos de arriscar e experimentar coisas novas
  • Fazer aqui uma pequena homenagem à minha mãe, pela mestria com que guiou todo este processo. Mãe e Pai ao mesmo tempo, sem deixar que eu desistisse mesmo seguindo fracasso atrás de fracasso. 
  • Outras pessoas talvez tivessem respostas completamente diferentes da minha nas mesmas situações que eu, e há que compreender isso. Depois de tantas "tareias" que o desporto me deu, posso dizer que aquele pátio, as brincadeiras no recreio, a minha mãe e a minha família é que conseguiram que eu nunca desistisse de tentar novamente, mesmo sabendo que a probabilidade de correr mal fosse enorme.

Era com o meu pai que eu vivia o Desporto. Era ele que me levava para a Sede, víamos jogos de futebol e brincavamos com uma bola, no pátio ou em casa dos meus avós. Era ele quem ia comigo e com a minha irmã para a natação. Foi ele quem me ensinou a jogar Super Mario ou Crash Bandicoot e me introduziu ao mundo dos computadores, que aprendeu a usar já depois de estar em tratamento: construiu um site para os Magos, aprendeu a utilizar o Photoshop e linguagem de Java... tudo isto de forma completamente independente - vejo aqui algumas parecenças comigo. Era (e ainda sou) um "menino do papá", e ficou muito feliz quando me comparam a ele. Desde expressões, à forma de andar ou até outras coisas que nem me lembro bem, a carga genética é algo que mantém as memórias vivas, e que fazem com que não possa sentir outra coisa que não orgulho. Gosto de pensar que serei a versão 2.0, fica a faltar-me um bigode farfalhudo como o dele.

A forma como a minha mãe foi capaz de desempenhar esse papel, que nunca tinha sido o dela, é algo completamente incompreensível para mim. A necessidade de adaptação fez com que virasse super-mulher, sem que nunca nos faltasse nada, independentemente das dificuldades que ela tenha passado.

Por tudo isto, entendo perfeitamente a responsabilidade que nós, agentes do Desporto, temos para com todos aqueles que passam por nós. Temos de procurar ajudar as pessoas a gostarem do treino, o treino deve ter momento de prazer e recompensa para que valha a pena ser vivido. Entendo ainda que cada pessoa tem uma história, que não pode ser desvendada por um simples perfil do Instagram. Tive diversas figuras que me acompanharam durante o meu desenvolvimento. Mesmo que nunca consigam substituir o papel de um pai, a verdade é que alguns dos meus treinadores foram figuras que impactaram a forma como vejo o mundo. Eu não fui treinador de voleibol durante muito tempo, mas nesse tempo tive atletas que perderam os pais, outras com situações familiares muito instáveis e outras que não tinham sequer com quem falar. Se eu tiver sido para elas um bocadinho do que foram para mim, então a minha missão foi cumprida com sucesso.

Este é o último post do blog de 2024, e por isso quis deixar aqui destacada a importância que a minha família, amigos de escola, vizinhos que brincavam no pátio e colegas de equipa/treinadores tiveram para mim. Lembro-me mais deles do que vocês imaginam.

Obrigado a todos que lêem isto, deixa-me muito feliz fazerem-me chegar as vossas opiniões sobre as coisas que vou desabafando por aqui, é sempre uma lufada de ar fresco!

Feliz 2025 para todos vocês!